Alguém

Aprendeu a viver do Outro, deitado no ranger eterno do peito do Outro, como se do mundo nada mais precisasse. E no dentro do Outro aprendeu que o Outro não vivia. Decidiu, então, sair do Outro para mostrar a ele como se fazia para viver. Saiu! E fora do Outro percebeu que além dele haviam outros, que ao contrário do Outro eram diferentes uns dos outros, e do Outro, sempre igual. Viu ainda que os outros sorriam, para ele, para o Outro e para os outros, ele quis sorrir como os outros, e sorriu. Um sorriso que só quem nunca riu ri, a descoberta da felicidade. E ser feliz era melhor que viver. A vida nos torna vulneráveis e dependentes de uma eternidade limitada de coisas que vamos descobrindo, como recompensa por viver, que é maçante. Seria cruel abandonar o Outro e ir sorrir com os outros que outrora nem se faziam existentes para aquele que só vivia e nisso se bastava? Ou seria burrice voltar para dentro do dentro do Outro? Ele até que sorria, o Outro, mas o fazia somente pelo verbo, pra dizer que fez e não dever nada a ninguém. E de tanto não dever aos outros criou imensa dívida consigo mesmo, o Outro esquecera da vida, que recíproca também dele desdenhou. O Outro era no máximo oculto e dentro dele o ocultou, o cresceu, o criou, o fez crer que dentro dele era o tudo que existia e que ele era o mundo todo. Desmentindo todas as verdades, aprendeu a viver fora do Outro, decidiu não mais viver do lado de dentro de ninguém, percebeu que do avesso todo outro é mais bonito, e todo dente ri. Fez de si todos os outros, outras, tornou-se infinito. E o Outro? O Outro morreu! Morreu porque não soube viver vazio, ou porque não houve ninguém que o ensinasse como fazer pra viver. O Outro se foi assim, como vai quem nunca soube que havia vindo, voltou para si, e sem suportar-se, sumiu. E no meio de tantos outros, não há mais o Outro que nunca soube viver a vida que tinha, é que na tentativa fugaz e arriscada de o fazer, perdeu-a, como quem perde algo roubado, era o destino tirando dele o que nunca lhe pertenceu. Era o Outro tornando-se nenhum.

Frederico Brison.

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