Intocável com insistiu em ser

Ela, depois de muito tempo sendo quem era, decidiu, cansada de ser, que mudaria. Nunca havia crescido dentro de si força alguma e para nada, já nascera muitas vezes, mas por ser quem era, deixara morrer prematuramente. Era Cíntia. Casou-se cedo, aos dezenove anos. Teve disciplina rígida, era filha única de mãe professora e pai militar, do exército brasileiro, chegou a ser coronel antes de morrer. Cíntia sempre teve tudo em troca de somente ser quem ela era, moça respeitada, de família, muito bem educada, que sabia se comportar com etiqueta nas mais variadas ocasiões, que falava pouco e mantinha-se discreta. Antes de casar estudou, formou-se professora para satisfazer o desejo da mãe, enquanto o dela, de tornar-se veterinária para cuidar de animais abandonados fora ofuscado pela imponência a qual sempre se subordinou. Conheceu Armando ainda na universidade, ele era o tipo de homem que atrai qualquer mulher, e a conquistou com maestria, com olhares que refutavam o dela dando a entender que não havia interesse da parte dele, o que fez com que o fascínio dela chegasse a ponto de explodir. E foi comendo pelas beiradas que essa relação começou, foi uma pena que o prato tenha esfriado antes que ambos estivessem bem alimentados.

Depois do casamento eles desandaram e continuaram juntos por comodismo, a casa estava no nome dos pais de Cíntia, na época o pai dela ainda vivo determinou que nada antes da morte dele e sua esposa seria dela, e ela que sempre acreditou ter tudo, percebeu que não tinha nada. Manteve-se assim casada com Armando para evitar voltar a morar com os pais e ele porque não tinha pais e nem herança, era um sozinho no mundo. Depois de muito tentar e após laudo médico, Cíntia descobriu-se estéril, lamentava-se dias inteiros consigo mesma e culpava-se pois nela se bastaria, era incapaz de progredir. Armando quando soube, embora não demonstrasse se abateu, decepcionou-se como nunca antes, sempre quis ser pai, e foi, anos depois com outra mulher. Mas ali, enquanto ainda nutria por Cíntia seu mais puro e sincero sentimento, pensou que não seria. E foi a partir daí que o que chamavam amor começou a desmanchar-se. Toda mulher deseja ser mãe, mesmo que diga que não, no fundo, ainda que seja no fim do abismo que ela é, ela deseja. E tirar o dom da vida de uma mulher é roubar parte da sua feminilidade, é torná-la incompleta, e Cíntia, que sempre foi católica apostólica romana, agora deixara de crer na existência de um Deus, ou tão somente passasse a crer que ele fosse incapaz.

Uma vez, quando caminhava na rua em que morava foi abordada por uma cigana que cobrava vinte reais para dizer a sorte das pessoas, falava do passado, presente e futuro, Cíntia, pouco supersticiosa, desdenhou da moça no início, mas quando a cigana disse só de olhar pra ela sobre a sua esterilidade, ela entorpecida virou-se e curiosa quis entender como a mulher sabia daquilo. – São vinte reais! E o que são vinte reais para que saiba o que quer? Me pague e sente que eu deito as cartas para você, minha querida. – Convencida de que não custava nada tentar, prontamente se sentou tirando da carteira duas notas de dez reais, entregando nas mãos estranhamente enrugadas da cigana que de rosto aparentava juventude, ela tomou de Cíntia o dinheiro guardando no decote. Tirou, Cíntia não pôde ver de onde, um baralho de cartas esotéricas, com nomes, números e desenhos. Por um momento Cíntia pensou em desistir, levantar e voltar pra casa. O que os vizinhos iriam pensar se passassem e a vissem? Achariam que agora depois de velha deu para acreditar em macumba, tarô e feitiço, eles não entenderiam, ela não entende. Mas a ganância de saber, ter respostas sobre a sua impotência gritava, e ela dando ouvidos a si, calou o mundo. A mudança começara. – Essa doença que lhe abate, que lhe impede de gerar é coisa de carma. – Cíntia ouvia. – Isso é coisa de vida passada, não dá pra mudar. – Completou. A cigana falava de assuntos que Cíntia desconhecia, dizia que em outra vida ela havia abortado seis filhos e que por causa disso, nessa não teria nenhum. Cíntia não acreditava e nem duvidava, mantinha-se inerte, e foi quase na hora em que pensara em ir embora que a cigana lhe disse – E cuidado, esse homem que lhe jura amor, não ama, deixou de te amar por esse motivo e no meio disso tudo já existe outra mulher, e infelizmente o sangue será inevitável. – Fechou seu baralho e deu por finalizada aquela consulta, deu ainda a Cíntia uma flor, era um lírio branco, era lindo. – Tome! É seu. – Cíntia agarrou-se ao lírio absorta e após despedir-se em agradecimento com um sorriso tomou seu rumo de volta pra casa.

No caminho ela não definiu se o que sentia era tristeza ou felicidade, e por não conseguir elucidar o que era decidiu que não sentia nada. Ela que nunca teve nada seu, agora tinha, e melhor ainda sem precisar dar nada em troca e nem ser quem os outros esperavam que ela fosse. Ela que nunca daria a luz, perguntou-se se um dia a teve, constatou que não. Nunca teve luz. Sempre fora assim, meio apagada. Não queria mais ser, e por não querer, não seria. Olhava o lírio que a sua mão abraçava, a única coisa dela. E não importaria se as pétalas murchassem, caíssem, e a flor voltasse a ser nada. Continuaria a ser para todo o sempre dela, ainda mais agora, que deixando de existir não poderia ser de mais ninguém. Tomara nos passos que a traziam de volta pra casa, decisões que a transformariam. Ela percebeu que assim como o lírio, ela também a pertencia, e num ato de egoísmo definiu que não se dividiria com quem quer que fosse. Tomou-se para si, por completa. Ela mudara. E cheia do que se tornara chegou em casa, contente, já havia esquecido seus pontos fracos e o que não podia produzir, estava satisfeita consigo. E quando quase estava decidindo que o que sentia era sim felicidade, e que estava pronta pra sorrir com todos os dentes, encontrou Armando satisfazendo-se com outra, na cama que era dos dois, com o amor que deveria ser destinado a ela. Houve confusão, ela percebeu que ainda o amava muito. A Cíntia comportada, educada em escola cara e disciplinada já não existia mais, Armando ainda não sabia, logo soube. Cíntia arremessou-se para cima da cama e a briga estava instaurada, os vizinhos de porta sem saber o que ocorria se mobilizavam na rua fazendo nada por não saber o que fazer, e chamavam a polícia porque eles saberiam, pensavam. Lá dentro, gritos, vidros quebrando e xingamentos. Do lado de fora, comentários, cochichos e até alguns risos debochados que de repente morreram na boca com o som de um tiro. O estrondo veio seguido do silêncio mais intenso. Era a calma. Correram todos para todos os lados, se acuaram até a chegada da polícia. Dentro da casa, o choro abafado de Armando, com arma em punho e mãos sujas de um amor que não merecia. Estirado no chão, o corpo de Cíntia, cheia de si, que pelo ferimento feito a bala no peito ia se esvaziando do que acabara de se tornar. Ao seu lado, o lírio, tão branco, tão dela. Que agora, aos poucos, morria. Ela conseguira ser somente sua e ter o que lhe pertencia. Morreu sem dever nada a ninguém.

Frederico Brison.

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