Lapsos

Tenho te visto vezes demais, perdi de repente o costume de permitir com que você passasse despercebida. Agora você devora o meu olhar, o que destrói minhas distrações. Não tenho te visto inteira, mas partes suas caminhando despreocupadas por aí. Outro dia quando eu andava como sempre ando, pensando no tudo que sempre penso, tropecei nos seus olhos ficcionados, abruptamente como de costume, achando-os, me perdi. Lembro com clareza da escuridão dos teus olhos, era um lago negro habitado por sereias que cantavam e atraiam para o abate homens bons. E você piscava entre duas ou três palavras, mastigando as minhas melhores partes. Sorria com a minha desatenção. Então, eu te vi. E tenho te encontrado em constante, instantes em que trêmulo fraquejo diante da tua presença, sempre tão ausente. Tua voz ganhou novas entonações e sotaques, te ouvi na fila do mercado certa vez, dessa vez teus olhos não estavam lá, era apenas o teu som vindo de lábios que também não te pertenciam, para me perturbar com candura. E em mim não houveram ouvidos fechados. Quis saber dos teus assuntos e soube. Nada dito foi para mim, mas eu acreditei que fosse. Eram, todas as manhãs de domingo, quando você acordava meu sono desenhando com os dedos coisas inimagináveis nas minhas costas, ali você escreveu frases que eu nunca saberei. E ao perceber meu despertar, você contava o seu sonho, ou o quanto estava aborrecida por ter esquecido do mesmo, dizia que esqueceu por ter mexido no cabelo, toda supersticiosa. Se esforçava para lembrar, como se daquilo dependesse a sua vida, desistia sorrindo e vinha me amar. Hoje, gostaria de ouvir todos os sonhos que foram esquecidos, e viver os que foram interrompidos. A última vez que te vi foram semanas atrás e não entendo porque deixou de aparecer para mim, tua maldita presença me abençoa. Condena minhas ações. Faz lembrar que ainda preciso de um Deus, que nada mudou desde a última vez, que ainda sou um parque de diversões pegando fogo. Rememora dores antigas, que doem sarcásticas debochando de mim. Entretanto, o que há de falta é o que mantém completo o que não deve faltar.

Frederico Brison.

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