Pelo telefone

Te liguei mais cedo do orelhão e gastei dois cartões de quarenta na sua caixa postal. Eu precisava dizer tudo o que você não percebeu. Eu disse, e mesmo que você nunca escute, eu disse. Fazem dias que não chove na gente e a mulher do tempo anunciou no rádio pela manhã que o temporal se aproxima. É, o tempo tem mudado e desta vez é irremediável. A ventania já esvaziou meu maço de cigarro e derrubou todas as folhas do cajueiro. Não caiu caju. Você precisava ver que bonito as folhas no embalo do vento, era de encher os olhos. Onde você estava que não estava aqui? A casa está trancada e a chave no esquema, se o tempo virar e o sereno cair você sabe voltar. Será melhor dormir na sala, o quarto ainda está cheio de agonia. O relógio da cozinha parou, a hora marcada embaixo da poeira são da tarde de ontem, não o recupere com pilhas novas, tem tempo que eu gosto de guardar. Ande um pouco pela casa, deixe sobras de você. Quero perceber o seu vestígio. Tem café na garrafa e conhaque escondido atrás do pote de feijão, tem menos do que deveria ter, tudo tem sido uma imensa falta. Suas coisas estão no mesmo lugar e a senha do alarme é a mesma. O telefone foi cortado e tem lasanha na geladeira. Já vão dar nove horas e eu pensei que fossem seis, sem você me torno atemporal, e marco as horas pelos programas da tevê, hoje não tive paciência para televisão. Eu estava pretendendo ficar, mas já começou a chover, se acaso perguntarem por mim, diga que eu só volto quando o tempo firmar.

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