Wilson, Geraldo e Noel

Encontrei um amigo de anos, depois de anos, num bar que a muito eu não frequentava. Ele ia acender um cigarro quando me viu passar. Eu menti, ele me encontrou. Me gritou ainda sentado, acenando com a mão e o cigarro apagado entre os dedos médio e indicador. Guardou no maço, lembrou que a fumaça me incomodava. Estava sozinho, era assim que ele costumava e gostava de andar, sua companhia sempre lhe bastara. Tomou um gole da cerveja não tão gelada, enquanto o copo suava, escorria e pingava. Perguntava da vida, das mulheres, trabalho. Falava do seu trabalho, da vida, das mulheres. Grande entusiasta! Eu respondia a tudo, poupava os detalhes, os mesmos que ele não economizava. Não satisfeito em discutir o presente, decidiu rememorar antigos casos, contava o que lhe vinha na memória, lembranças que eu já tinha esquecido. E ria alto, exagerado. Continuava o mesmo tipo. Eu olhava o relógio, apressado pra nada, e ele era todo o tempo. Ofereceu-me bebida, comida, de tudo. Me apresentou aos poucos conhecidos que chegavam e saíam. Rezava a todos a mesma ladainha: – Este é um grande amigo! De infância. Eu não me lembro de tê-lo conhecido quando criança, mas eu já não lembrava de muitas coisas. A tarde caía, do alto o sol já apontava o infinito, e devagar ia deitando no berço da eternidade. Os transeuntes passavam consumidos pelo dia e corriam exaustos para todas as direções, com suas feridas de angústia expostas ao mundo, cheios de fome de mais. Fez-se silêncio entre nós, um silêncio que estava esmagado no meio do berro da cidade, era o mais perto da calma que iríamos alcançar. Ele sorria, sereno, com os olhos devorando tudo. Não era alegria, nem felicidade. Ocorre, raramente, no meio da gente, um sorriso como esse, desacompanhado de qualquer sentimento ou sensação, é o sorriso de quem compreende. Ele entendia e nem sabia disso. De repente, vindo dele, recebi um olhar de imensa candura, era a gratidão do reencontro, questionei-me se ele gostava mesmo de ser sozinho ou se no fundo momentos assim lhe faltavam, o retribuí com o meu melhor sorriso, esse sim, cheio de sentimentos. Já era noite e a lua brilhava estridente, toda cheia de si. Ele terminou seu último copo, pagou a conta, lhe agradeci. Nos despedimos brevemente, sem muita cerimônia. Marcamos um encontro que nunca aconteceu. Voltei pro caminho que o destino me havia desviado, segui meu rumo. Ele foi pelo caminho oposto ao meu, de cabeça baixa, pensativo, talvez estivesse sorrindo. Quando dobrou a esquina fumou aquele cigarro, prometeu que seria o último. Nunca cumpriu sua promessa.

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