Do que eu ainda sou capaz

Ele era grande. Não do tipo que ocupa muito espaço, mas daqueles que cobrem a vida dos outros com a sua, até que por fim exista uma só. Até hoje não sei se ele é real, apesar de sempre vê-lo, ainda mais depois que ouvi dizer que a realidade andava ludibriando certa gente, mostrando-se real num tempo e terminando por ter sido apenas ilusão. Tenho certeza que isso é coisa de deus e seus santos, eles que em seus ócios eternos tomaram gosto por fazer piada com os pobres coitados que a eles prestam comunhões e por eles despertam cedo nos domingos. Decidiram em suas divindades que a felicidade seria motivo de prece, e que o riso haveria de ser parcelado em quantias pequenas sobre as bocas esfomeadas que clamavam caladas para que algo pudesse ser além do pouco que era, que eles pudessem ser mais.

O céu gargalhava.

Mas não vim proclamar a pena, banalizar os crentes ou blasfemar de deus e seus capangas, vim falar de um que por ser tão divino e inexistente me trouxe à tona todos esses pontos que só me serviram para alongar o texto, pois com eles eu não quis nada dizer.

E ele era grande, e as coisas grandes exigem cuidado, não cuidado pela coisa, mas cuidado com a coisa, entretanto, não era ele coisa alguma, ele era um. E tinha nome, tinha voz, tinha lá as suas crenças, amor e realidade. E da mesma forma que o amor sempre está e nunca é, também estava o que chamamos de real. Você que me lê deve conhecer algum tipo que encanta com o olhar, que parece ter nos olhos um feitiço antigo, uma magia que não se esforça pra esconder, ele te olha, te denuncia pro mundo, te domina apertando a visão na direção da tua vida e te faz amar cada parte da sua gigantesca presença, torna-se real, pelo tempo que quiser.

A vida veio a pouco chorar pro meu lado e acabei por perder o fio da meada, infelizmente terei que lhes pedir paciência e exigir a mim mesmo que a tenha, constantemente roubam toda ela de mim.

Que ele era grande todos já estão fartos de saber, só gostaria de reforçar a ideia de sua grandeza, pois bem, ele era todo grande. Dentro dele cabiam milhares de mim, e eu que sempre fui miúdo, retorcia a minha alma em mil pedaços para poder abrigar a dele, mas ele se debatia demais, e dormia apertado dentro do meu lado esquerdo inteiro, me tirava o sono jogando suas pernas, seus toques e carícias mais proibidas, jamais tirava o sonho. Ele tinha mania de me despertar inteiro, e com isso me tornava grande, crescia para morar nele sem deixar espaço para mais ninguém. E eram nas tentativas de tornar-me maior que explodíamos, tínhamos partes nossas em todos os cômodos da casa, no fim de tudo brincávamos de juntar nossos pedaços num canto e rememorar nossos melhores momentos até o anoitecer, e de tanto falar, calávamos, e era no silêncio que nos compreendíamos, a ausência das nossas vozes dialogava com nossos olhares, era tão bom que doía. Doía de apertar, de afogar, de arrancar fora o que eu conhecia de mim. Doía de acordar de manhã e ver que um dia ele não vai estar aqui, e sim fazendo faculdade na Iugoslávia só para me contrariar. E por mais que a agonia seja tanta, eu não quero que depois dele, venha um senão. Porque por mais que um dia não sejamos mais, ele será eternamente meu, pois refletirá todos os meus próximos. E, como supracitado, por ser meu, foge da realidade que me cerca. E isso é imutável, apesar dos meus lamentos. Ele sempre conseguirá estar presente em tudo ao meu redor, tão intocável como insistiu em ser.

Frederico Brison.

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29 comentários em “Do que eu ainda sou capaz

  1. Olá!
    Incrível. Apesar de ter achado o texto um pouco triste, com certeza nos leva á reflexão. Você soube expressar seus sentimentos de maneira muito profunda.
    Parabéns pelo belo texto. Você escreve realmente bem.
    Abraços!

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  2. Lindo texto! Todas as construções metafóricas fizeram com que eu viajasse nessa leitura e a interpretasse de várias maneiras, é lógico que, quando se lê um texto literário, não existe certo ou errado, é uma questão de interpretação. Adorei esse texto e acredito que ele cumpriu sua meta porque a mensagem que ele me passou foi muito positiva, em um momento no qual só tive desilusões e tristezas.
    Obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Ótimo texto! Suas construções metafóricas me fizeram viajar na leitura e encontrar várias interpretações para a mesma. É claro que, em se tratando de textos literários, não existe uma interpretação certa ou errada, apenas interpretações, por isso, acredito que seu texto cumpriu a meta dele e me transmitiu uma mensagem positiva em um momento no qual só tive desilusões e tristezas.
    Obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

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