Prefácio

Era tão bonito que doía. Vê-la sentada no batente da porta da frente, sorrindo pra tudo que era gente que passava. Tinha os lábios petrificados pela sua alegria, que contrastava com candura com os seus olhos tão cansados de ver. E eles viam. Enxergavam com a compreensão de um vida inteira, tinham em si a saciedade de quem já devorou o mundo todo. Carregava estampado na face rasgada pela vida, os nós que o tempo deu, e davam voltas nela toda, abraçavam e encobriam o seu corpo de caminhos, até que um dia todos eles se encontrassem e ela chegasse ao fim.

Conheci dona Iolanda quando eu era miúdo, quando tudo parecia maior do que de fato é, e nada importava. Dia após dia a velha Iolanda construía em minha vida o começo da rotina, tornara-se cada vez menos incomum e mais cotidiano. Era no começo de cada manhã que meu rumo a trazia, o encontro nos obrigava ao confronto dos nossos olhares, e minha boa educação forçava-me a troca de cumprimentos ligeiros e repetitivos, enquanto ela tricotava o universo.

O tempo, dono de si, passava sem pedir licença e nem dever nada ninguém, e ela lá continuava, como se sempre tivesse estado, antes da vida, antes de Deus, e parecia que permaneceria até que ambos inexistissem. Dona Iolanda, sentada em sua cadeira, sorrindo e rezando baixo, se tornara pra mim o começo e o fim.

Havia nela um mistério que nunca desvendei, era o que ocasionalmente nos causava incompreensivelmente a calmaria de mil anjos, era a paz. E ela vinha, tirava de dentro do seu ninho branco, que era onde ocultava os segredos do cosmos, a magia que nos sossegava.

Como tudo que é deixa de ser para tornar-se eterno, caminhei para o infindável, e a distância e a sina tornou fatal a extinção de Iolanda em minha senda. Ontem bateram em minha porta, amigos pretéritos, que o tempo também cuidou de aniquilar. Dona Iolanda, dona do sim, calava a prece, tornava-se epílogo de si mesma, colidia enfim, no fim. Despencou abstrato e tangível desespero, como se houvesse perdido o que não me pertencia, e eu chorei, o pranto brotava do hoje e ia em direção a cada memória perdida, em seguida eu sorri, relembrar Iolanda evocou o prelúdio de mim.

Frederico Brison.

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10 comentários em “Prefácio

  1. Acho que todos temos uma história parecida. Sempre há aquela senhorinha ou senhorzinho que fez parte da nossa infância. Me lembrou demais de uma que morava na rua da minha casa, sempre tão querida. O meu casamento e os filhos que vieram depois, afastaram a pouca proximidade que tínhamos, mas lembra-la sempre trás aquela sensação gostosa de nostalgia. É um tempo bom que não volta mais. Parabéns pelo texto, você escreve demais da conta. Já virei fã.

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  2. Nossa que lindo esse texto na hora lembrei e até cheguei a ver minha avó através da minhas lembranças. Parabéns pelo texto maravilhoso..Gostaria de convidar você para cadastrar seu blog na plataforma que eu trabalho. Será muito bom ter seus textos la e poder compartir com nossos usuários.. Espero sua visita lá em feedHi.com é ótimo para blogueiros e seus textos fazem parte de uma categoria que muita gente busca ler. É gratuito ta..Bjuss
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