Segregação

Ela não deveria dizer, mas disse. Quebrou os pés da mesa do bar com o peso das suas palavras. O cinismo enterrado no túmulo das suas pálpebras sorria pra mim no piscar dos seus olhos. E a boca não calava. Vomitava mazelas de nós como se fossem flores, me mandava crer e eu acreditava, sofria a gargalhada, suportava o fim. Quando a boca fecha, a voz faz falta, e a falta faz tudo. Você caminha em direção ao porém, e se perde na parte de dentro do que era. Ali nasce a saudade, pronta e disposta a se afogar no primeiro copo da mais dolorosa cerveja. Ela trepa em memórias antigas, devastadoras. Salta da ponta do nosso cigarro e desaba em nós. Quando o amor acaba não há boteco que aguente, eles fingem suportar a nossa dor inteira mas nos mandam embora na metade da noite. A gente acerta a conta, guarda a lágrima, segue o rumo. E vive como se nada tivesse acontecido.

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2 comentários em “Segregação

  1. Frederico, li vários textos seus e fiquei na dúvida sobre em qual deles colocar o comentário. São todos excepcionais, você tem muito talento e consegue criar imagens poéticas de uma tal força e beleza que não há como deixar de se encantar com a sua arte. Escolhi comentar neste post pela frase “Você caminha em direção ao porém, e se perde na parte de dentro do que era.” É a dor da perda de alguém que se ama expressa de maneira absolutamente perfeita! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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