Um coração que sangra toca Buarque

Quando você chegava eu me punha em silêncio, para rezar no mudo que eu era, uma prece tímida para que você ficasse a eternidade inteira, que só quem morre tem. E era no amém que você sempre partia. Ia em direção ao mundo, falando com a boca cheia do que eu era, como se não houvesse fome o suficiente para engolir o que havia devorado de mim, e não havia, cuspia bulímica lançando fora o que jurou preservar. Na cara suja de amor, levava estampado os seus melhores sorrisos, os que eu criei e você roubou, pra trocar por bebidas em mesas de bar.

Eu te vi. Caminhava com cuidado na fragilidade amarga que se tornou meu coração. Teus passos me sangravam e eu corria para ver o bloco da agonia passar. Era sempre muito bonito de se ver. Certa vez você dobrou a primeira esquina do esquecimento e se escondeu atrás dos meus olhos secos. Nunca mais te encontrei do lado de dentro.

Vez ou outra você aparecia, bebia e fumava de tudo o que era meu, sorria sorrisos que aprendeu por conta própria ou que a vida lhe ensinou. Tentava voltar, não achava os portais que lhe trariam novamente para dentro do que é íntimo. O tempo, curandeiro de Deus, cicatrizou os flagelos da carne, e não existia mais ferida aberta que lhe servisse de caminho.

Tenho corpo fechado e o peito vazio. Tenho em mim a paz dos querubins e a solidão dos eremitas. Não sinto mais sede e perdi a fé na humanidade. Tenho lençóis sempre limpos e as unhas cortadas. Eu perdi a voz e calei a reza. Sou um deus embriagado que fuma cachimbo ouvindo “Construção”.

Frederico Brison.

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