Desflorecer

Desejava intimamente voltar pra terra que o pariu, de chão árido e miséria latente, mas que acolhia todos os filhos gerados em seu ventre. Carlos Antônio, era chamado de Toninho. Desde que chegou ao Rio de Janeiro vindo de Belágua, sertão do Maranhão, ele morava no mesmo lugar. Na Rua Riachuelo, oitenta e seis, dentro do Centro da Cidade. Já faziam nove anos que deixou mulher e filhos na casa humilde de barro e telha que fora construída ainda em sua infância por seu pai, falecido vítima de tuberculose. Nunca teve mãe, essa morreu no parto de seu sexto filho, ele, que ganhando a vida a fez perder a dela. No fundo culpava-se, preferia às vezes, no calar da madrugada, nunca ter nascido, assim sua mãe ainda estaria viva, mas pensava que se fosse assim ele não seria seu filho porque não existiria, e não existindo, nada que veio dele seria o que é, se confundia e parava de pensar. Assim que chegou arranjou trabalho no porto, era serviço pesado e ele fazia de tudo sem saber fazer nada, foi aprendendo com o tempo. Era motivado pelo desejo tímido de voltar consagrado para o Maranhão, haviam noites em que chegava a sonhar, haviam dias também. E ele se via, bem vestido, de cabelo baixo e barba feita, trazendo nas mãos coisas que nunca teria, malas cheias de tudo. Era, no sonho, recebido por Vitória, a mulher que o ama e o aguarda cansada de espera, e os filhos Francisco e Maria, ele já não os reconhecia, já eram homem e mulher. O sonho dava lugar a vida, e a vida não era boa. Viver é triste pra quem precisa, pra quem não faz por fazer, pra quem vive por obrigação. Ele agora em si, de volta ao que era seu, a dura realidade de um homem que queria mais do que o pouco que tinha, se levantava do seu túmulo de esperanças e ia ganhar o mundo, tão perdido. No porto, entre o vem e vai dos navios cargueiros, era onde o tempo morava. Invisível. O tempo dá, o tempo tira, é questão de tempo. O mar cortado se abria e sangrava diante dos seus olhos, ele sorria por compaixão, fazia por hábito, não sabia o porque, se surpreendia e amarrava a cara, não sorria por dias, pensava que não tinha direito. As horas o consumiam, iam se desfazendo aos segundos até se esvaírem no fim delas mesmas, e dele. Quando a noite caía ele se levantava, andava rumo ao lugar nenhum onde habitava e lá se escondia de tudo. Tornava-se ninguém, não sabia que sempre fora.

Frederico Brison,

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