Despejo

A garganta dói pra boca não dizer o que grita mudo em mim, o ouvido sangra pra mente não saber o que alto se cala em ti. Os olhos são os mesmos, bons e sadios de janelas sempre abertas, mas pra que serve enxergar todas as cores da face pra fora, se de fora pra dentro tudo é imperceptível, estático e paralítico? Como um embrião que suicida-se forçando a mãe a pôr pra fora do ventre a criança ainda crua, de vida faltante e veias vazias. Seria sádico dizer que sorrio com todos os dentes mordendo línguas e confissões de amor eterno, que são expostas num ápice de embriaguez física e etérea, e por assim ser, é isso que digo. Seria prático trancar todas as portas, lacrar todas as vidas, viver comigo mesmo até que meu outro eu se canse de mim e assassine minha parte nessa história. Seria cômico se não fosse triste, seria triste se não fosse alegre, seria alegre se apenas não fosse. Mas é. E segue o amor que pressupõe a casa calma e silenciosa, morta, como deve ser, amar é morrer, dentro de cada parede em que a face é rasgada, é ser ladrilho pra pés traiçoeiros, é o suor do outro no lençol, é o silêncio que fica quando você se torna inabitável. É uma segunda com chuva, com mágoas, louças sujas, uma cama inteira vazia e meio conto pra contar.

Frederico Brison.

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