Um silêncio

Debaixo da chuva que me revela eu desfaleço em fraqueza frente ao pouco de força que lhe resta, e tu gasta o quase inexistente que sobrou para reerguer-me. E depois de estar em pé, trilho os passos que nos levarão a solitude. Perceba enquanto o tempo ainda é tempo que a tempestade que achávamos encher o rio despencou do céu tão e somente para me levar junto a corrente, permitindo que tua nascente voltasse a fluir, florescendo novamente como outrora tuas veredas. Não agarra-te aos meus desertos monumentais, desague na imensidão que és, deixando que eu me afogue no infinito ermo que eu sou.

A decisão já não mais lhe pertence, foram os deuses que lhe ordenaram abandonar a perícia e deixar de padecer. Minha carne é tão podre e incapaz de alimentar-te, minha saliva secou, minhas veias grudaram e já não servem de percurso pra vida que deixou de ser impulsionada pelo músculo supremo que atrofiou-se. Corra enquanto tua cova ainda não foi aberta e volte somente para sepultar-me entre os pagãos, somente para prestigiar o futuro do qual se livrou. E perceber que o ir em frente era improvável, porque nada continua depois de já ter finalizado, e eu era todo fim. Dei-me por acabado antes de começar, e no meio do que fui terminei não sendo, porque ser final para mim ainda era segredo. Hoje não existe mais mistério, fui proclamado à condenação dos pecados que achava serem santos, e condenado a viver mais longe de mim, por viver longe de você.

Apesar de termos ferozmente tentado fecundar em nós a vida, fomos atropelados por mim, que nos abortei tão rápido quanto a luz que me abandonou os olhos. Eu quis que fôssemos, querer maldito que nos sucumbiu. Meu destino colidiu no teu, lhe trazendo perda e dor, entretanto, o nos acidentar hoje lhe traz ressurreição. Renasça e viva além de mim. Por nós. Por mim. Que morri, mas fui tocado. E guardo tua marca pela eternidade, que me carrega nos braços rumo ao Sol que mais uma vez servirá para iluminar o que deixei de ver. O que esqueci existir.

Frederico Brison.

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5 comentários em “Um silêncio

  1. A secura feito deserto é temporária. Um dia, novamente pego de surpresa _porque sempre é, afinal_ sentirás a boca úmida e o coração quente. Sorte a nossa que por vezes andamos desatentos. Belo texto.

    Quero te contar que compartilhei-te no meu Facebook e feliz estou porque não recebi apenas curtidas pela indicação. As pessoas estão de fato lendo você e voltando para comentar comigo. Sorte a minha e mérito todo seu. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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