Incógnito

Esta noite eu sonhara, não recordo se o fiz dormindo ou acordado. Arrepio-me só de lembrar deste meu esquecimento, a noite passada ainda agora é um enigma para mim. Portanto, se acordei em minha cama e não numa viela dessas que cortam o bairro da Lapa, prefiro, ah! Deus, como prefiro crer mesmo que foi um sonho.

A memória mais distante que tenho do último dia dormido, é a de chegar na rua mais movimentada que abriga em si todas as cópulas comunais de risos, gozos e odores que em sua mistura tornavam-se embriagadores da matéria. O ambiente por si só emanava uma energia podre, no bom sentido, se houver algum. No comprimento da avenida, barracas e olhares que cruzavam-se por sede de algo ou por própria coincidência. E eu estava no meio desta artilharia de vistas gulosas. Dali, eu conseguia observar a alma de cada um dissolvendo-se no suor que escorria dos corpos que desejavam outros corpos, copos. A manhã ainda fazia-se distante, e eu, mais ainda.

Pálpebras quase fechadas que ocultavam pupilas dilatadas e libido exacerbada, eram as dos jovens, que me corriam os olhos vez ou outra. Juventude que buscando liberdade, deixaram de lado toda a jovialidade, pra viver a velharia que é militar-se a buscas. Eu nunca busquei, sempre fui dos abandonos, do deixar ir e voltar sozinho. E cá entre nós, liberdade não se busca, liberdade não existe enquanto somos vivos, a maior prisão somos nós mesmos, carcereiros das grades que nos prendem nos mais remotos cantos que ocultamos boca a dentro. Livre-se disso, livre-se de você.

Eu estava absorto em meus pensamentos ilógicos e conclusões premeditadas sobre todas aquelas vidas que eu já chamava de minhas, eu tomara posse de todos que estavam ali, eram todos meus, um a um, e eu podia fazer deles o que bem quisesse. Poderia me abrigar dentro deles e vivê-los como se fôssemos comuns. Eu era tantos que se de repente me abordassem questionando-me sobre quem eu era, despencaria sobre meus ombros uma dúvida tangível e amedrontadora. Eu não teria resposta. Talvez dissesse:

– Você! Eu sou você.

E daria as costas prendendo-me a uma absurda certeza que cultuaria até que me apresentassem alguém melhor pra ser.

Tudo ia de luz à escuridão – e depois luz de novo – numa fração de segundos, que duravam milênios. Talvez fosse o piscar dos meus olhos que apagavam e acendiam a minha visão, talvez fosse qualquer outra coisa externa, que desligava tudo pra que eu não conseguisse enxergar algo. Num desses súbitos de escuridão, ainda estático por próprio gosto de estar, o ambiente desfez-se, e eu voltara a nos ser, num outro lugar. Éramos agora, além de mim e os outros, uma escada. Escada comprida, de cores firmes e vivas que me irritavam melodicamente. Azulejada, com ladrilhos bem arranjados que eram encobertos de bundas cansadas e viradas não pra Lua, mas pra uma Terra pacifista e amante, um tanto mais gentil. Da escada não subi, mas antes que pudesse perceber eu já estava no topo. Dela e deles. Minha audição estava a léguas de mim, e me trazia à consciência sotaques e músicas cantadas por vozes que deveriam ter nascido mudas. As mãos do homem que batia o tambor eram as mesmas que logo levantaria a última dose em direção à boca, e chegando em casa agrediriam a mulher, marcando-a com o meu vulnerável pensamento. Pobre coitada! Pudera eu não ter pensado nisso. De cima da cabeça do mundo eu via, enxergava além de mim mesmo e atravessava com os olhos tudo o que era carne diante de mim, alimento da terra e de certos deuses, que nos hão de comer no momento certo, num banquete divino, devorando-nos vorazmente com a fome de uma eternidade, nos engolindo inteiros por pura piedade e por amor a nossa composição. De nós mesmos restarão as ideias, restarão o resquício de uma vida que num outro tempo esteve, que foi além do que é. Restará de nós o que amamos, embora isso também já não reste, se manterão seus frutos.

Do alto das ideias é possível ver o topo do mundo, e era de lá que eu saltava em direção ao fundo de todas as almas, vórtices que sufocavam de forma execrável aqueles que não chegassem às suas superfícies. E eu mergulhava até o fim de cada um, em seus esconsos oblíquos me encontrava. E despertava massacrando a dura realidade, abrindo os olhos e engolindo o universo.

Sonho? De qualquer forma, despertar e dormir são coisas que só existem depois que as faz. A ação, quando em prática, anula o conhecimento de si própria. Agora, então, eu sabia que despertara, e minha consciência logo deduzia que dormira. Baniu-se de mim a certeza de que isso trata-se de um sonho, entretanto, a dúvida é muito mais gentil, e acolhe os que temem saber a verdade, é o acalanto do pecador.

De volta a mim, eu trago comigo uma bagagem ainda maior, com saudades e anseios que transmutam o transborde de um aglomerado existencial onde me falta o antes, o todo que era, o passado que perdeu-se no caminho pro futuro. Tudo deu lugar a parágrafos que não se completam, sobre sonhos que não se assumem e vidas que seguem.

Frederico Brison.

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52 comentários em “Incógnito

  1. confesso que nunca tinha me atentado a pensar na liberdade por essa perspectiva… livrar-se de nós mesmos talvez seja algo que volta e meia eu tenha tentado, mas nunca consigo me desvencilhar por completo…
    parabéns pelo texto, tocante e profundo…
    bjs…

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  2. Olá, Frederico.

    Parabéns pelo texto, temos que prestar bastante atenção para entender tudo o que ele quer dizer. Gostei muito do trecho “Eu nunca busquei, sempre fui dos abandonos, do deixar ir e voltar sozinho.” …e isso não é o mais sensato a ser feito? Tudo o que nos pertence volta pra gente, eu não tenho dúvida disso.

    Mais uma vez, meus parabéns.

    Beijos

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  3. Oie!
    Que texto lindo! Não estava preparada para os sentimentos que ele me despertou, e fiquei momentos lendo e lendo novamente cada um dos paragrafos. Muito bom! Um texto que me despertou muitas emoções.
    Bjks!
    Histórias sem Fim

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    1. Obrigado, Diane. Fico contente que tenha gostado do meu estilo de literatura. Estou trabalhando no meu primeiro livro, este blog foi criado inicialmente com o intuito de divulgá-lo quando estiver publicado. Até lá, irei escrevendo nele textos aleatórios que deem ao leitor um pouco do sabor do que será o livro. Agradeço novamente!

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  4. Oiee Frederico ^^
    Que texto incrível! Eu adorei a sua escrita, achei interessante a escolha das palavras ♥ Gostei principalmente da última frase, “Tudo deu lugar a parágrafos que não se completam, sobre sonhos que não se assumem e vidas que seguem.” Amei a sua escrita, vou acompanhar de perto o blog 🙂
    MilkMilks ♥

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  5. Tamanha a intensidade do seu texto, Frederico, capaz de tirar o folego e me fazer embarcar em alguns devaneios e este trecho é muitíssimo profundo e me levou a refletir sobre o ser e não ser: “De nós mesmos restarão as ideias, restarão o resquício de uma vida que num outro tempo esteve, que foi além do que é. Restará de nós o que amamos, embora isso também já não reste, se manterão seus frutos.” E se frutos não houver, sim aqueles frutos palpáveis, “olháveis” físicos? … hum sabe-se lá. Viu como devaneei? Hahaha.
    Parabéns pelo belíssimo texto.

    Bjo
    Tânia Bueno

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  6. Texto lindo e intenso. É a primeira vez que visito o blog, não conhecia a sua forma de escrita, mas gostei bastante. Espero que continue escrevendo textos assim, gostei de vários trechos, pois me trouxeram muitas reflexões.
    Beijos.

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  7. Brison posso virar sua fã?
    Meu deus, sua escrita é profunda, uma mistura de velho e de novo, de acelerado e vagaroso, se acentuando a confusão a explosão de sentidos e cores indefinidas passando por becos e ruelas sem um destino traçado mas com um caminho já escolhido, acho que me perdi e me encontrei, sonhei e acordei enquanto lia e relia, amei e e me identifiquei com seu texto, um homem com a alma de um poeta, adorei!!
    Beijocas….
    https://westfalllivros.blogspot.com

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  8. Oi, tudo bem?
    Parabéns pelo texto, o achei muito bem escrito e com uma história muito interessante, refleti em vários momentos com algumas coisas citadas e me senti envolvida com tudo. Enfim, o texto ficou realmente ótimo, espero conseguir ler outros textos.

    Beijos ;*

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