Olvido

Lembro de nós como se nunca houvesse acontecido. Mais parece um sonho cortado no meio pela urgente vontade de mijar numa madrugada fria, ou um livro que esqueci o título e nunca terminei de ler. Recordo cheio de dúvidas e ansiedades, curioso para saber o que vinha depois. Acontece que depois e depois e depois virá a eternidade, e eu nunca saberei. A eternidade é a minha pia cheia de louças sujas, e não restou nenhuma vontade de lavar. Era tarde, quase sempre é. O mundo já está atrasado, vencido, jamais haverá cedo novamente. Não importa mais o quanto se adiante, só existe o tarde demais. E isso é o que era. Eu vinha, como sempre faço, cigarro aceso, boca trancada, olhos que mordiam a dura cidade caída sobre nós, era o caos. Eu andava faminto para chegar, atravessava as ruas do Rio de Janeiro com a pressa de um eremita, caminhava rumo a mim, queria me conhecer. Um dia eu soube que nunca conhecemos. Eu mentiria se dissesse que o ruim não não era bom, que aquilo que matava não era o que me manteria vivo até a minha morte, negar que o errado foi o certo durante o extenso tempo em que acreditei que era, seria cuspir no prato que não comi por falta de fome. E eu ia. Não era para algum lugar, eu ia seguindo a vida até que não fosse mais me dado caminho.

Frederico Brison.

Anúncios

33 comentários em “Olvido

  1. Olá Frederico,
    Um excelente texto, que na sua simplicidade, traz certas reflexões.
    A eterna procura do que é sensato, que muitas vezes nos tira o sono pode ser ou não explicado pelo simples ato de viver, viver de maneira livre, viver da forma que nos sentimos bem, sem nos rotular querendo entrar em algum estereotipo.
    Bjim!
    Tammy
    Livreando | Facebook

    Curtido por 1 pessoa

  2. Vejo que você é um cronista de primeira linha e ouso comparar sua escrita com a de Álvares de Azevedo.
    Pensamentos, reflexões, vidas… Talvez se pergunte o porquê de “vidas” está no plural, sendo que somos portadores de somente uma.
    Mas para um escritor como você, cada texto é uma vida, uma emoção, sensação de se jogar de um penhasco quando pega a caneta e o papel.
    Tenho certeza que vou ouvir falar muito de você, quando lançar seu livro de crônicas, com certeza comprarei.
    Sucesso,
    Filipe Penasso – Pena Pensante

    Curtido por 1 pessoa

  3. Olá, curti muito o seu texto. Muito reflexivo e tocante, você tem uma escrita maravilhosa (adorei a forma que você utilizou em se expressar e ousar durante todo o texto).
    Continue assim que você irá longe, não tenho a menor dúvida disso!

    Abraço,
    Luan – Carpe Diem Literário.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Bela crônica, Frederico. Li duas vezes para poder compreender suas palavras por completo. Eu interpretei que no texto há uma busca pessoal, a busca daquilo que ele é ou deseja ser no meio das incertezas da vida. Posso estar equivocada, mas acho que esse tipo de texto tem uma interpretação muito particular, né?

    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  5. Rapaz, que estilo! Gostei da sua escrita, parabéns! Eu acho que muitas vezes nos sentimos perdidos assim, especialmente quando perdemos algo que sequer lembramos mais qual era seu verdadeiro valor. Acho que esse tipo de sentimento vem quando deixamos um amor morrer, por exemplo, mas ainda não estamos preparados para nos desfazer dele. O tempo de convívio nos transforma e faz com que nos tornemos alguém tão diferente que… bem, seguimos a vida sem realmente construir nosso próprio caminho.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.com.br

    Curtido por 1 pessoa

  6. Olá. Tudo bem? Adorei sua crônica. Você soube expressar muito bem os sentimentos que quis passar no seu texto. É nítida a angústia e desespero do personagem.
    Parabéns pelo seu texto e escreva sempre para que eu possa acompanhar por aqui.
    BJ

    Curtido por 1 pessoa

  7. E aí, Felipe. Tô vendo que conseguiu deixar seu comentário dessa vez. Tentei colocar um plugin com comentários pelo Facebook, mas falhei na missão. Hehe. Valeu pelo teu comentário, rapaz. Opinião pra mim conta bastante. E toda crítica, positiva ou negativa, é válida.

    Curtir

  8. Olá, tudo bem?

    Gostei do texto, apesar de curto, evidencia muitos sentimentos e nos leva a refletir: Pra que, de fato, é tarde demais? Realmente é tarde? As vezes sim, as vezes não… Mas conhecer a si mesmo, é sim, uma tarefa árdua.

    Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

  9. Ótima crônica! Às vezes é muito difícil nos desvencilharmos de alguns amores ou desamores e mais difícil ainda é aquela eterna pergunta que nos martela: e se?
    Como alguns disseram acima, é impossível não se identificar com a angústia do narrador, afinal, todos nós já passamos por algo parecido.

    Curtido por 1 pessoa

  10. Adorei o texto, bem reflexivo e me identifiquei com várias partes. Nem sei o que dizer sobre essa coisa de o que nos mata é o que nos mantém vivos, tenho que concordar que passamos por coisas assim na vida… e algumas delas ficam com a gente mesmo que teoricamente tenham passado.

    Beijo.

    Ju – Entre Palcos e Livros

    Curtido por 1 pessoa

  11. Oi Fred, adorei seu escrito quase existencial, hahaha. “…caminhava rumo a mim, queria me conhecer.” Na sequencia a afirmação não nos conhecemos nunca é um fato, já que somos uma eterna caixinha de surpresas que reage dependendo das circunstâncias, assim penso eu. Nem sempre o que é taxado de ruim é ruim, pode ser bom pelo simples fato de ter a possibilidade de transgredir, adoro isso. Hahaha. Também, o que é ruim ou bom? Tudo deve ser uma questão, dentre outras coisas, de perspectiva ou da perspectiva… Hummmm… a se pensar! Tipo “ser ou não ser? Eis a questão”.
    Continue me presenteando com seus escritos.

    Bjo
    Tânia Bueno

    Curtido por 1 pessoa

  12. Oi Frederico, tudo bem?
    Achei o seu texto incrível e me fez refletir sobre alguns aspectos da vida. Você conseguiu expressar em poucas palavras tantos sentimentos e momentos que é impossível não parar para apreciar o seu texto.
    Parabéns pela escrita!
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  13. Oi,
    Acho que é a primeira vez que eu cheguei aqui, adorei o seu texto. Adoro esse tipo de escrita profunda, racional, quase que visceral. Virei mais vezes sem dúvida pra desfrutar o prazer dessa leitura.
    Beijos

    Curtido por 1 pessoa

  14. Oi, tudo bem?

    Já tinha vindo aqui antes e lembro que gostei muito do que li 🙂
    Esse texto, em especial, me tocou muito, porque me vi muito nele. Essa ansiedade de viver tudo, mas não saber pra onde ir. Esse caos. Você conseguiu exprimir muita angústia em poucas linhas, parabéns! Adoro esse tipo de texto que não fica se esmiuçando em frangalhos e que é mais realista e duro ❤

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s