Beatriz: Carne, vento, osso e imaginação

Conheci a menina mais meiga de todas. Tão meiga que fica difícil desacompanhá-la de suas características. Pequena e magrinha, como se pudesse dobrar-se em origamis, ou então pegar uma brisa e parar no próximo ponto, se assim lhe aprouver. Bonitinha, com um lado do cabelo, curto, maior do que o outro. Os fios lhe caíam quase por sobre os ombros, dando um toque de modernidade à somatória da beleza predominantemente clássica.

Branca e delicada como se estivéssemos tratando de Renoir e suas paisagens. Inclusive, emoldurada, poderia muito bem servir na parede de qualquer homem de sensibilidade artística ou poética. Olhá-la era como qualquer tipo de degustação: se fazia com calma, apuravam-se os sentidos e deixava que ela lhe fluísse, dos olhos até as pontas dos pés, como em um tipo de energia ou tensão que subjugava e falava por si só.

As mãos eram macias como as de pianistas. Comparação adequada, a julgar pela sua habilidade com as teclas brancas e pretas e o seu bom gosto musical. Podia tocar de Bach a Chopin, misturando os dois e fazendo malabarismos com os martelos. Ninguém podia fazer malabarismos com os martelos. Só ela.

A respeito de suas pernas, é outra demonstração óbvia de que existe, realmente, mais metafísica nas pernas de uma bonita do que em todos os templos do mundo. A fineza da pele era também adequada a sua natureza escorregadia. Tudo naquele corpo pequeno e de aparente fragilidade denunciava uma harmonia e concepção ímpar. Era um desenho, uma ilustração, não meramente passível de ser atribuída ao acaso. Ela era arrebatadoramente coerente em suas linhas, curvas e personalidade. Tudo havia um propósito, desde os seus joelhos, feitos a risca, quanto os seus pés, pequenos, ágeis, que costumavam a ficar na ponta dos pés com uma elegância de cisne.

Tudo o mais era singelo. Não de uma forma prejudicial a sua beleza ou sexualidade. Era deveras proporcional, denunciando o cuidado rítmico dos bons poetas. Ao destrincha-la em versos, certamente, alcançaríamos um soneto bonito, desses que escorregam para dentro e fazem dormir solenemente.

Não se movimentava em desperdícios. Seus gestos eram calculados, possuidores de uma graciosidade referente à como ela mesma vivia a sua vida. Tudo haveria de ser perfeito, deslizante, fluído e perspicaz. Ainda que em um bailado, simples, ou uma valsa atarefada, pisar nos seus pés parecia algum tipo crime. No “dois pra lá, dois pra cá”, eu me garantia, mas se ela me puxasse para algo mais elaborado? Sei que não posso proceder e nem me meter a fazer extravagâncias com as poucas qualidades que me restam.

Esmiuçando-a, como se deslizasse os dedos pelo corpo dela de maneira bem leve para que não a forçasse a fugir, semelhante ao que fazem os gatos, assustados, que pulam e escalam os postes na iminência da nossa aproximação. Eu percebia que o contato poderia (e deveria) ser tranquilizante. Havia algo de Amelie Poulain; um desespero contido, uma súplica contida, um desejo contido, de que, arrumando a bagunça da vida dos outros, a sua própria bagunça soasse menos ensurdecedora. Não soava, mas ela fingia muitíssimo bem.

Não abandonemos ainda a figura de Amelie Poulain. Afinal de contas, o suposto coração fraco que foi motivo de cuidados especiais na infância, mesmo que não se mantivesse realmente na história da francesa, nesta aqui possuía fundamento. E aí vai mais um aspecto de sua fragilidade: entre um susto e outro, poderia, esse coração apressado, não aguentar e dar cabo da menina. Mesmo que fosse uma condição dramática, só me reiterava a necessidade de captá-la como se capta um momento, um insight, uma inspiração arredia e breve, ainda que a minha intenção mesmo fosse a de desenrolar um tapete de longevidade até o tal infinito de nós dois.

Eu a percebo. E queria dizer que não faz mal que sinta vergonha, fique vermelha ou insegura em relação a qualquer coisa. O meu afeto está além, perdido entre o bailar de teus vestidos, perdido entre as panturrilhas nuas, entre uma partida desajeitada de sinuca e no entrelaçar de dedos na volta.

Perdido na imaginação de um moço, que vê e cria teu arquétipo sem nunca tê-la tido, sentido, tocado, ou ao menos de longe recebido teu vento.

Frederico Brison.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s