O menino da falange do eremita

Não tinha amigos porque o mundo também não os tinha, e ele gostava da acidez de estar a par: tinha vergonha do que faziam. Falava coisas em que não acreditava, porque que espécie de criatura merecia ouvir sua inércia? Queria afogar-se na ingenuidade das almas boas que ninguém quebrou. Queria não rir o riso amargo de um livro não lido. Queria fazer da vida o seu oposto, e fazer de si uma sepultura. Diziam que comia livros, mas era mentira; eles é que o devoravam de dentro para fora, faziam ninho em suas raízes e cresciam até voar. Sabia prever cada passo de cada vida, e mesmo assim amava todas as almas vivas e mortas. Tanto amor vinha de não sei onde, e ia rumo a não sei o que.

Para estranhos, era esquisito (em sua cabeça, a mais certa definição); para conhecidos, um garoto louco. Mas para íntimos, ele era nada além de um coitado que sucumbiu. Fazia questão de olhar nos olhos dos outros e mostrar-lhes a face rasgada sem ter vergonha. Avisava-os do ápice de sanidade que alcançava alguém antes de deixar de ser humano. Detestava que concordassem com ele, detestava que discordassem. Todos para ele eram protótipos de criaturas que jamais fariam ideia de sua sorte, de problemas proporcionalmente intensos e mesmo assim tão íntimos. Lia em busca de auto compreensão, por pura insegurança do signo. Ultimamente, vinha tendo dessas de acreditar em astrologia. Mas ele se conhecia como jamais ninguém faria, e falava de si com uma facilidade assustadora. Doía nos outros quase sem querer, e fazia-os sorrir mais sem querer ainda. É de raciocínio comum rir do trágico, do exterior. Escrevia na esperança de largar-se e falava na esperança de espantá-los.

Frederico Brison.

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