Para a letra mais importante do meu alfabeto I

Daquele mesmo quarto, numa quarta qualquer.

Querido, caro, amado (ou qualquer adjetivo que você prefira) F.,

Escrevo-te, mas entenda que não é por sentir tua falta ou por vontades proibidas de te ter — não mais. Rabisco-te algumas sentenças pois não proso há tempos — como se é perceptível pelo vocábulo querendo precipitar e escapar de mim. Esta ausência de fluxo com as palavras talvez se dê porque minha parte poeta destaca-se mais, ultimamente. As imagens gritam e escapam dessa caixa de som cá do meu ladinho, vêm e cospem em mim, que escolha eu tenho? F., você é o único capaz de me entender.

De qualquer forma, hoje é quarta, e, mais importante ainda!, hoje é dia de prosa.

Escrevo-te porque hoje a porta bateu sozinha e eu não pude interpretar isso como qualquer coisa a não ser vento. E nem se atreva a dizer que foi algum fator externo que atrapalhou o meu entendimento desse infortúnio! Foi uma brisa ingrata que a mexeu, é a única coisa plausível.

Vê o quão longe isso foi, F.?

Veja bem se está me entendendo: o vento fez a porta bater. Há nesse mundo coisa mais absurda que isso que lhe conto, com os dedos doídos? F. — me perdoe também pela falta de vocativo melhor, mas “querido” ou “amor” me remete a tempos antigos em quais não resido mais, e muito menos você —, este tipo de coisa não existe. Há de ser minha cabeça pregando peças em mim! Há de ser…

F., talvez você careça mesmo de me levar a algum lugar onde possam me consertar. Você dizia que seus hábitos tinham a cura para os meus tão maus costumes. E, apesar de eu nunca ter tido oportunidade de visualizar isso com certeza — nunca conheci sua rotina muito bem—, creio que valha a chance. Você não percebe a coisa pequena, cortante e quebradiça que me tornei? Droga, F., virei poesia!

No passo que estou, não conseguirei expor a decadência e o disparate que isso é. Imagine-se em uma jaula em cima de uma árvore, essa, por sua vez, em cima de uma montanha e mais!, há também um mar pelas redondezas. É mais ou menos o quão perdido um sujeito se encontra quando vira poesia.

Eu sei, F., que você não tem a capacidade ou a vontade de compreender tal sentimento de perda. Você sempre dedicou à poesia seus melhores sorrisos, os mais naturais. E quiçá haja justiça nisso — eu não acho que tocar em mim, na distância segura, seja ruim. Porém peço sua atenção: ter-me por dentro não traz nada de agradável. Principalmente no estado que estou, vê? Poesia há de ser externo e extremo, há de ser o fator irredutível que fecha as portas com brutalidade, poesia é o que eu peço ao garçom como acompanhamento do uísque e também pode chegar a ser o nome do pior livro que eu li — que ultraje tê-lo comprado! Essa coisa tão admirada por poetas tem a obrigação de estar atrás de cada um desses fatos, só que, ao adentrar em mim, ela sumiu de tudo para exibir um certificado de posse.

Mais ou menos o que aconteceu com você, F., naqueles amores remotos que tínhamos.

Mesmo que seu apreço pela poesia seja notável, imploro-lhe para não rir do meu desespero. Creio que, no fundo do seu ser (ou existir), você me entenda. É uma obrigação minha acreditar nisso, vê?

Tento observar no meu copo de coca-cola o reflexo da minha vida com poesia. Agora percebo porque essa danada vive escondendo-se de quem mais quer seu bem! Não a julgue mal, estar sob sua pele não é somente desastroso como cansativo. Compreendo agora que ela precise de uns momentos a só, refletindo no porquê de ser tão feia e codificada assim. Engraçado isso da (minha) compreensão, muitas vezes, só vir após a posse.

Se existe o meu direito de pular de um assunto ao outro, farei isto agora: F., sinto lhe informar, mas estou apaixonado e não é por você mais, embora meu afeto por sua pessoa ainda seja grande e pastoso o suficiente para alagar nossa casa e molhar minhas calças até o joelho.

Ando sendo possuído pelos ácidos de uma paixão extremamente peculiar pela Vida.

Vá! Vá adiante e ria de mim, F. Dou-lhe o direito de gozar de mim, pois sei que é justificado. Logo eu, logo eu, tinha que ser eu?, que discursava com direito a fervor característico e gestos entusiasmados (que irônico), dizendo que de nada valia esse plano em qual vivemos, eu que sabia bem ressaltar os contras de estar vivo, os prós do sono eterno e da falta de crenças. Eu que acordava todos os dias sem ao menos um despertador ou um motivo para acordar. E agora corro atrás das coisas pequenas que berram, rasgando as pregas vocais, “eu estou vivo! estou vivo! sou a vida!”.
É que me ocorreu que eu admiro ter um leque, dois leques, três leques de possibilidades. Andei dando-me um pouco de atenção e vi que escuto música apenas com o fone esquerdo. Reservo o ouvido direito às peripécias da vida, às idéias que vêm com(o) o vento… Eu quero tudo ao mesmo tempo.

Eu preciso saber todas as línguas e beijar-lhe a cada segundo. Eu necessito da sua companhia às terças-feiras e sinto falta das barrinhas de cereal sabor morango. Eu preciso de tudo, tudo, tudo. E, apesar dessa palavra que ecoa tão alto em qualquer lugar poder ser sinônimo áspero de “nada”, eu percebi que tem algo que valha tudo que é indescritível.

Os seus cabelos bagunçados, os seus cabelos por ora curtos. Os seus lábios arroxeados de frio quando você insistia que suportaria a chuva gelada à sua pele nua e alva. Os seus olhos tão profundamente irritantes. O jeito com que você tira o gás dos refrigerantes e como me repreende por fumar após roubar um cigarro do meu maço. Seu sorriso número treze — aquele de satisfação antes de regar as plantas —, suas unhas sempre lascadas. Seu tão estranho e variado gosto musical e literário. O riso que dava após ganhar as apostas que fazíamos de quem leria o mesmo livro mais rápido, esse riso tão debochado — eu sei que você mudava meu marcador de páginas para capítulos antes só para obter a vitória. O modo com que você torce o pulso para fazer os acordes mais simples no violão e o sorriso número sete — o que você dava quando, todo manhoso, pedia-me para lhe fazer uma massagem.

A vida merece tudo isso. É por isso que me jogo de joelhos a ela.

Sugiro sem ciúme algum para que você se apaixone pela vida também, F., pois algo me diz que, sinceramente, ela também nutre paixões por você. Formaríamos um triângulo amoroso bonito, e eu ficaria sozinho como é usual (quem manda ser poesia!). Você e a vida, um sobre a outra, se enroscando, se amando. Visualizo essa imagem com um suspiro. Você tem esse costume de me roubar os amantes, mas não há problema nenhum. Sei admirar um belo quadro, embora o pintor entre nós seja você.

E olhe! No decorrer dessa carta, deixei de ser poesia! Perceba, que, num dos pontos gordos, vomitei-a para fora de mim. Muito obrigado, F., eu sabia que você me entenderia. Tinha que ser você mesmo!

Preciso lhe confessar uma coisa… Creio que minha mentira seja perceptível: tenho ciúmes sim. Apesar do meu (a)caso com o senhorito ter acabado faz um tempo, não admito mais que roube-me a vida desse jeito. Muito menos a Vida. Todos os meus amantes escolhidos a esmo foram sequestrados por você, F.! E não acho isso muito justo. Porém, quem sou eu para falar de justiça? Um ex-poesia, ex-prosa… Diga-me: quem sou? Você há de saber, pois embora eu não tenha a mínima ideia de como descrever seus encantos, sei muito bem quem você é. Uma letra, uma letra caprichosa, cheia de voltinhas e toda redondinha, magrinha, fraquinha. Meu-inho.

Por mais que eu não lhe ame mais, você eternamente será meu, pois reflete todos meus próximos queridos. E, como supracitado, por ser meu, foge da realidade que me cerca. E isso é imutável, apesar dos nossos lamentos chorosos. Você, F., consegue estar presente em tudo ao meu redor, tão intocável como insistiu em ser. Aposto que se eu pedir aos meus pais uma foto do meu aniversário de cinco anos, você fará-se presente, olhando-me com ternura ou roubando um brigadeiro antes da hora do parabéns.

Bem típico seu.

Então, embora não seja de meu feitio, terminarei isto aqui com um pedido: responda-me. Responda-me sem palavras que dessas eu já estou cheio. Almoço, janto e ainda tenho-as na sobremesa. Por mais que não seja certo, quero sua resposta na forma de beijo. Um último e perverso beijo, seguido do sorriso número treze e daquela música que você me ensinou a tocar no violão, com direito a floreio de pulso no acorde de lá.

E depois vá, vá produzir amor com a Vida que é de seu direito. Vá, por favor.

Só peço que se mantenha perto o suficiente para que eu posso mandar-lhe essas cartas pouco conclusivas. É preciso que o destinatário da minha Vida seja um “F.” grande e gordo. Com ponto e tudo!

Nos vemos em breve, então? Ainda não desisti do meu último beijo.

Com os dedos doídos e um sorriso (número dezessete, se você quiser precisão).

Acho que não preciso assinar isso.

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